A Música para piano na Madeira
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Duarte Joaquim dos Santos

1801? - 1855

Virtuoso e pedagogo

 

Partituras

Madeira Quadrille 1/2/3/4/5

 

Rui Magno Pinto

Duarte Joaquim dos Santos* (1801-1855) foi um dos músicos mais activos e influentes no Funchal do 2.º quartel do Século XIX. Filho de João dos Santos e Rita Oliveira, é natural de Olivença e não de Elvas, como recorrentemente foi referido. A 20 de Fevereiro de 1823, ingressou como organista na Irmandade de Santa Cecília, propondo-se apenas como Joaquim dos Santos. Foi compositor e intérprete de piano, órgão e harpa. Exerceu a sua prática musical em Lisboa (onde habitava à Rua do Tesouro Velho - actual Rua António Maria Cardoso - na freguesia dos Mártires) apresentando-se também em concerto no Porto, em 9 de Setembro de 1826, com as suas primeiras composições conhecidas: um concerto para piano, um solo de harpa e variações para flauta e piano (interpretadas com João Parado) (Vieira, 1900: 273). Publicou na Lithografia Armazem de Musica da Casa Real algumas quadrilhas, 4 das quais estão em depósito na Biblioteca Nacional de Portugal. Convidado para leccionar num colégio feminino em Londres, Santos dirigiu-se a esta cidade, possivelmente em finais de 1826, com uma carta de recomendação de João Domingos Bomtempo. Nesta cidade, foi também professor de piano de D. Maria II, presente por duas vezes nesta cidade, entre 7 de Outubro de 1828 e 30 de Agosto de 1829 e em 1831.

Em Londres, Santos adquiriu uma notável reputação, afirmando-se como compositor prolífico, publicado por editoras como Payne & Hopkins, R. Cocks & Co., Jeffreys & Co., etc. São conhecidas cerca de 60 obras, citadas nos catálogos publicados pelas editoras, subsistindo, até à data, cerca de 25 peças. Entre as suas obras publicadas remanescem na British Library obras para piano solo e a 4 mãos - quadrilhas, valsas, rondós, divertimentos e um capricho sobre temas das óperas de C. M. von Weber, transcrições de árias operáticas - e uma obra sacra para coro e órgão – Alma [redemptoris mater]. Entre as várias obras existentes, que poderiam destinar-se ao ensino, é notória a republicação de quadrilhas compostas em Portugal e editadas pela Lithografia acima referida. Não são conhecidas referências sobre a publicação do seu Concerto para piano e das obras para flauta e piano, harpa, bem como sobre a sua produção musical efectuada na Madeira destinada a eventos e instituições.

As primeiras notícias referentes à actividade deste músico na Madeira datam de 1 de Dezembro de 1827. Tratar-se-ia, contudo, de uma primeira curta estadia na região, tendo em consideração a sua possível estadia em Londres já em 1828. O relato no periódico O Defensor da Liberdade elogia a estreia de uma sinfonia (na região) e a interpretação de um Concerto para piano no concerto em benefício de Carlos Guigou, realizado no Teatro do Bom Gosto em 28 de Novembro de 1827 (1).

Após a sua residência em Londres, Santos terá regressado ao Funchal na primeira metade da década de 1840; as referências disponíveis mais recentes datam de 1844. Duarte Joaquim dos Santos e Guilherme Meyer arranjaram para orquestra, em Outubro de 1844, a obra Introducção e Thema com Variações para Flauta Principal e Grande Orquestra. A associação de Meyer à Sociedade Philarmonica, onde se apresentou a solo, com Variações para flauta, em 9 de Dezembro de 1841, 3 de Março e 18 de Abril de 1842, permite considerar que o arranjo podia destinar-se a esta colectividade, sendo também um importante contributo para o conhecimento do efectivo instrumental das orquestras madeirenses. É referida, por Alberto Artur Sarmento, a composição de uma outra peça sacra, uma Novena [a Santa Cecília], composta para as festividades da padroeira dos músicos, celebradas a 22 de Novembro de 1844. No número de 1 de Maio de 1847 do periódico O Defensor é referida a composição, "pelo mui hábil Professor o Snr. Duarte Joaquim dos Santos", do Hino ao Governador [José Silvestre Ribeiro], para vozes e orquestra, sob letra de Monteiro [Teixeira], para o final de um Prólogo ao drama Trinta Anos ou A Vida d'um Jogador representado no Teatro Concórdia. A 30 de Dezembro de 1850, estreou a Polca Aglaia, composta para um baile de caridade da Sociedade homónima. A referência à Madeira (Madeira Quadrilles - datada, com algumas reservas pela British Library, de 1847) e a dedicatória a personalidades da sociedade madeirense (Misses Terro Garcez, Miss e Mrs. Ellicott, Mrs. Rego Sant'Ana) em algumas obras impressas em Londres permitem considerar a possível publicação, nesta cidade, das suas obras compostas após se ter sediado na Região.

A análise dos caprichos e divertimentos sobre temas operáticos para piano assevera, pelo grau de dificuldade técnico-expressiva presente, o excelente nível interpretativo e composicional de Santos; tais obras integram o repertório virtuosístico cultivado por toda a Europa na primeira metade do século XIX. Por outro lado, outras obras, nomeadamente as para piano a 4 mãos destinam-se ao ensino e à prática doméstica; note-se que muitas das obras são dedicadas a meninas ou senhoras.

Santos apresentou-se frequentemente como pianista acompanhador nas iniciativas musicais madeirenses. Foi acompanhador de César Augusto Casella (na passagem deste violoncelista pela região em Dezembro de 1850 e Janeiro de 1851) e Júlia de França Neto (nos concertos de beneficência de 1854 e 1855), entre outras colaborações não referenciadas. A sua produção de música trivial – sobretudo as danças - alude fortemente à sua participação nos bailes realizados na região, enquanto compositor e/ou intérprete. Santos poderá ter integrado as orquestras de salão madeirenses, como intérprete, regente, ou sobretudo como intérprete-regente. Duarte Joaquim dos Santos faleceu subitamente no Funchal a 24 de Maio de 1855, com 54 anos de idade, após um prolífico contributo à vida musical madeirense.


 

* Esta versão é uma revisão da biografia publicada em 50 Histórias de músicos na Madeira.

(1) O relato da interpretação de um Concerto para clarinete nesta récita por Joaquim dos Santos foi entendida como uma referência a Duarte Joaquim dos Santos. Assim, na biografia deste autor no livro 50 Histórias de Músicos na Madeira, foi referido que Duarte Santos era intérprete de clarinete e compositor do mesmo Concerto acima referido, o que de facto veio a não se comprovar. Pesquisas posteriores à composição gráfica e impressão do livro - a consulta de referências, na documentação do Arquivo Histórico Militar, sobre bandas regimentais na Região, trouxeram alguma clarificação: Joaquim dos Santos era, em 1824, mestre de música do Regimento de Caçadores 7 no Funchal. Ter-se-á apresentado com alguma frequência nas realizações musicais da cidade do Funchal.